domingo, 6 de julho de 2014

Os meus alter egos: a Maria e a João

No outro dia aconteceu assim. A pessoa chegou, disse o nome, levantei-me um pouco da cadeira, demos dois beijos e retribuí: Maria João. Ao meu lado, espantaram-se: Maria João? Que estranho, não estou nada habituada, Maria.

Durante muito tempo acontecia assim: Como preferes que te chamem? Maria João ou João? Tanto faz. A partir de certa altura, porém, ganhei um terceiro nome: Maria. Vou pôr de lado alguns: Mary, Mary John, Johnny, Joãozinha, Joãozinho, Juca, Juquinha e outros mais ou menos familiares. A Maria e a João já chegam como alter egos da Maria João. Mas, quando me perguntam, nunca tenho preferência. Digo: Tanto faz, como quiseres.

A minha família chama-me Maria João, nunca tive direito àquele segundo nome nos ralhetes. Fizesse chuva ou fizesse sol, lá em casa era sempre Maria João. Durante toda a minha adolescência, também não tive esses problemas de identidade: era fácil, chamavam-me Maria João na escola. Só alguns professores e outros adultos escolhiam João, ou a versão diminutivo.

O pior (o melhor) aconteceu já tarde, quando cheguei a Coimbra. No início, ainda era Maria João, João para alguns. É normal chamarem João a uma Maria João, Zé a uma Maria José. Mas a partir de certa altura – e creio saber quem lançou a coisa – os meus amigos de Coimbra começaram a chamar-me Maria. Estranhei. Uma vez ligaram para minha casa em Guimarães e perguntaram se a Maria estava. A minha mãe não percebeu. Expliquei-lhe: Os meus amigos de Coimbra chamam-me Maria. Porquê?, perguntou-me. Não sei.

O facto é que, a partir daí, com a mistura de amigos entre Guimarães, Coimbra e Lisboa, Maria pegou. Se calhar, é mais fácil: Maria. Como aquela revista. Simplesmente Maria. Mas ainda hoje me causa estranheza estar a falar com alguém que mal conheço e essa pessoa dizer-me: Ó Maria, ó Maria. Sinto logo que conheço essa pessoa – ou essa pessoa me conhece – há bem mais do que um segundo. Maria? Mas gosto.

Quem não tem dois nomes não entende a confusão. Mas reparem: uma amiga minha chama-se Ana (toda a gente lhe chama Ana) e quando alguém descobre que ela também é Cristina é sempre um espanto. Cristina? A sério? Também me sinto diferente quando alguém me chama Maria ou me chama João. É estranho. Depois dizem-me: João é mais giro ou tens cara de Maria. E eu fico a pensar nas caras que tenho. E já quase me parece uma cerimónia alguém me tratar pelo nome: Maria João.
 

terça-feira, 15 de abril de 2014

Chegou.


Ele já chegou. É um novo livro, com texto meu, ilustrações da Catarina Correia Marques e edição da Máquina de Voar. Só está cá fora, porque a Margarida, da Máquina Voar, acreditou nele. Depois só cresceu, porque a Catarina deu forma a um rei que só existia em palavras. Cheira muito a novo, ainda apetece passar as mãos por ele a despropósito. Volta e meia, abro-o e vou à cata de pormenores nas ilustrações da Catarina para me encantar.
Queria explicar, como fazia facilmente com o Gatuno, de onde veio a história. O Gatuno tinha uma inspiração clara, o meu gato – ou um dos meus gatos. As minhas inspirações (fica engraçado no plural) vêm sempre de algo que me afecta. Não sei escrever sobre o que desconheço ou conheço vagamente.
Neste caso, a ideia de escrever uma história sobre uma pessoa que levantava voo já andava comigo há anos. Creio que foi motivada pelo Senhor Valéry que andava sempre aos saltinhos - do Gonçalo M. Tavares - e pelo sonho de uma amiga minha, em que ela voava. Seguiram-se alguns esboços inconsequentes - se a ideia não faz parte da minha vida, agarro-me à disciplina, ao esforço, à organização e não sai nada.
O derradeiro impulso para o texto veio obviamente de uma pessoa vaidosa que amavelmente me consumiu as energias durante algum tempo. Comecei a achar que teria um ego tão grande que qualquer dia rebentava. E, pronto, com uma fúria já me posso sentar a escrever uma história. Sento-me ao computador e as palavras caem, levantam-se, e lá aprendem a andar. No fim reconheço que exagerei, inventei, claro. Não escrevi sobre a outra pessoa, mas sobre mim, sobre a minha fúria em relação a essa outra pessoa que, vá-se lá saber, se calhar nem é tão inchada assim.
Algumas pessoas, como o David e a Suzana, que leram o texto antes de ser um livro, acabaram, mesmo sem o saberem, por fazer com que não desistisse dele. Mas quem leu quase todos os finais e frases novas foi o André. Já pus um livro a caminho de Macau – Macau será, espero, o título do meu próximo livro.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

"Onde nada se passa tudo pode acontecer"

Agora que cheguei a Portugal, sinto saudades. Ia escrever que é sempre assim, que isto me acontece sempre que viajo, mas não é verdade. Em São Tomé e Príncipe, foi diferente. Não fui até este país atravessado pela linha do Equador para fazer turismo, não fui sequer movida por uma enorme curiosidade, fui visitar uma grande amiga que está lá a trabalhar – e isso fez toda a diferença.
 
Ficámos em casa dela, em São Tomé, na cidade. Ouvimos as canções que os amigos dela ouvem, dançámos as músicas que lhes sacodem os dias e, sobretudo, as noites, perdemo-nos de jipe por estradas verdes e esburacadas: não tínhamos por onde fugir, estávamos mesmo enfiadas em São Tomé, e distantes de casa. Foram só umas semanas, mas eu não parava de pensar como eram bonitas aquelas paisagens e de como não gostaria de viver lá.
 
Não sei quantas vezes disse isto à Ana – chama-se Ana, a minha amiga. Quanto mais deslumbrante era o cenário, mais só e longe me sentia. Só a língua e a forma acolhedora como nos chamavam – as portuguesas – me aproximavam desse lugar longínquo. Mas este movimento constante entre cá e lá desloca-nos mais do que nos coloca. Então, quando começa a entardecer – lá põe-se escuro muito cedo -, e a solidão e a festa se cruzam numa mesma noite, é que o nosso mapa se desorienta.
 
Pensei muito nisto enquanto passeava à chuva, embrulhada naquele céu carregado; partilhei isto com a Ana, enquanto estava entretida a lutar contra as santolas na mesa; disse-lho entre mergulhos no mar; e devo tê-lo repetido outras vezes, quando estávamos deitadas de barriga para cima na areia de praias só para nós. Como podia sentir falta de tudo? Se lá há uma noite como cá não há, mais escura e mais cheia de barulhos; se aquela natureza selvagem nos desarruma e entrega a silêncios; se lá há peixe andala, e eu nem sequer como carne; se lá há música, e sempre vontade de dançar.
 
Chegámos a São Tomé a 27 de Dezembro do ano passado às 7h00. Os amigos da Ana, que não nos conheciam, foram com ela esperar-nos ao aeroporto. No último dia, fizeram praticamente directa para nos levarem ao avião. Todos cheios de sono, num jipe aos solavancos.
 
Na noite anterior, tínhamos estado no funeral da avó de um deles, o Beny. Criam-se intimidades muito depressa num sítio tão pequeno como São Tomé. O espaço apertado e o tempo lento fazem mover histórias, que devem ser um encantamento das ilhas: todos os dias há uma narrativa nova a agitar as conversas. Um roubo, o guarda que adormece, uma paixão de sobressalto, uma frase dita ao acaso e que é repetida horas a fio, uma peça de teatro que deveria ter começado às 8h00 do relógio (!), mas que deve ter começado muito depois (não chegámos a saber quando, porque fomos embora). Lá, o tempo do relógio é uma coisa; o da ilha, outra.
 
Mas é mesmo verdade: é impossível que os ponteiros que conhecemos possam ter registado as horas que passámos à conversa na varanda. Foram finais de tarde e noites intermináveis. Como é que em duas semanas se vai ao mesmo café todos os dias, se criam rotinas?
 
Eu até tive tempo para ir ao centro de saúde, porque fiquei com 39 de febre e, pelo sim, pelo não, fui fazer o teste da malária. Nunca se sabe. A probabilidade de estar com paludismo, estando a fazer a profilaxia da malária, deve ser a mesma de levar com um raio na cabeça… Mas a Joana (que é enfermeira e vive com a Ana) levou mesmo com um raio na cabeça quando esteve na Guiné-Bissau.
 
As coisas acontecem… E em São Tomé nem se fala. “Onde nada se passa tudo pode acontecer”. Encontrei esta frase num livro de Mia Couto que levei para ler e ela deu forma ao desassossego adormecido que senti.

Porém, e apesar dele, tenho saudades: da rede mosquiteira, dos passeios de jipe, da cor do céu, do verde que cerra todos os horizontes, do peixe andala, da fruta-pão. E escrevo este texto ao som de João Seria. E atrás de mim, tenho o quadro que o Beny pintou da Alda Espírito Santo – a dona Alda.
 
No tamanho das minhas saudades cabe tudo: a Ana que não está cá, a Joana na varanda à noite a contar histórias sobre a Guiné-Bissau, até as músicas românticas do Kuassa e o guarda a rondar a casa de capacete na cabeça (seria por causa da chuva? De repente, era tudo tão natural que nem me lembro de perguntar por que usava ele aquilo). No tamanho dessas saudades, só não caibo eu. Já estou de volta aos meus sítios, onde tudo se passa e, no fundo, pouco acontece.
 
Acontecerá certamente quando a Ana regressar. Mas ainda falta tanto. Até onde e até quando África a vai contagiar? É que ouvi dizer que isso acontece, muito. E, ao contrário do que ela poderá pensar, consigo perceber porquê.
 
(texto publicado na Fugas a 4 de Fevereiro de 2012)

terça-feira, 25 de junho de 2013

Agenda para as férias

Não fazer listas. Guardar a agenda numa gaveta fechada à chave e deitar a chave ao rio. Usar despertador para aproveitar as manhãs. Ler. Não ligar o computador. Não ir ao facebook. Esquecer o email. Deixar o telemóvel em casa. Tomar pequenos-almoços como se fossem almoços. Ler. Não verificar o email. Não ir ao facebook. Ler. Passear à beira-mar. Nadar. Boiar de olhos abertos. Ouvir Ali Farka Touré. Desligar tudo das tomadas. Fumar tabaco de enrolar ao final da tarde. Beber cerveja e mojitos. Jantar sem tomar banho. Beber vinho e sumo de laranja. Ler as notícias só em papel. Não pôr fotografias de pés na areia no facebook. Ler. Comer uma bola de berlim e uma maçã. Dormir com o pé direito de fora. Passear com a minha cadela. Vestir todos os dias o mesmo vestido. Andar sempre de chinelos. Não secar o cabelo. Ler. Não pôr fotografias do mar azul no facebook. Não responder a emails. Arrumar o computador num armário bem alto. Escrever à mão. Dormir com o pé esquerdo de fora. Passear com a minha cadela pela sombra. Aproveitar para dar ao meu pai, que fez anos, não um after shave, mas um prato de bacalhau à brás e outro de arroz doce. Pôr a mesa na varanda. Desligar a televisão. Escrever uma carta aos meus amigos emigrados ou em vias de. Pôr os envelopes no correio, até ao outro lado do mundo. Prometer que os vou visitar. Talvez até emigrar. Ler. Adormecer destapada, de barriga para cima. Deixar os meus gatos com amigos. Não perguntar todos os dias se eles estão bem e a dar muito trabalho. Não ficar ansiosa se não me responderem logo. Passear sozinha. Dizer seis palavras num dia inteiro. Reparar. Escrever num pequeno bloco à mão. Ver. Escrever num pequeno bloco à mão. Observar. Escrever à mão. Dizer cinco palavras num dia. Misturar melancia com vinho tinto e pêssegos com água. Comer laranja à noite. Não decidir. Ouvir conversas alheias na praia. Anotar tudo num bloco, à mão. Desenhar pessoas com palavras num bloco. À mão. Levar maçãs e água para a praia, mas comer amêijoas e pão a  escorrer manteiga. Pode ser mais uma, se faz favor. Esquecer-me das maçãs na mochila. Bater, como uma selvagem, em pessoas que deixem beatas na areia. Adormecer de janela aberta. Falar sozinha. Meter num frasco o cheiro do Verão à noite. Ir para a cama à meia-noite e às sete da manhã. Lembrar-me dos sonhos no dia seguinte. Não os contar. Não ir ao facebook. Falar sozinha. Ler. Ler em voz alta. Ver o meu pai dar gelado à cadela e não dizer nada. Dar-lhe fiambre de peru às escondidas. Falar com ela. Meter o cheiro dos pinheiros mansos num frasco. Decorar um poema. Brincar com os filhos dos outros. Escrever um bloco inteiro à mão. Comprar um novo. Acreditar que acreditar em meditação já é meditar. Não escrever nenhum livro. Não plantar nenhuma árvore. Não ter nenhum filho. Arranjar desculpas para estar sozinha. Chegar de comboio. Meter conversa no comboio. Ouvir esta música pelo menos uma vez por dia.

terça-feira, 28 de maio de 2013

O Vitória ganhou a taça, avô!

O título não é verdadeiro, porque nunca tratei o meu avô por avô. Ao meu avô materno sempre chamei “bubu”. No Norte não há avós com v. O meu avô era vitoriano por nascimento e convicção. Dos ossos ao coração. Lembro-me vagamente de ele ter, no escritório, uma fotografia das netas e outra de uma equipa, de um qualquer ano que não sei precisar, do Vitória. Chegou a ser da direcção do clube e usava, volta e meia, um emblema do Vitória na lapela do casaco. Como nunca gostei de futebol, nunca liguei muito às histórias que ele, de vez em quando, contava. Hoje tenho pena, muita pena, de não ter fixado com atenção essas recordações a preto e branco. Poderia ter construído, na minha memória e na minha fantasia, um futebol sem aquele ruído de fundo dos estádios, sem a voz dos relatos que nunca gostei de ouvir.
 
Claro que, no outro dia, gostei de ver as imagens dos vitorianos a festejar. Mas isso acontece-me sempre que há uma multidão a celebrar, a alegria contagia-me, mesmo que aquilo pouco me diga, pega-se à pele.

Se, na minha infância e adolescência, o futebol me era indiferente, hoje intriga-me: intriga-me o que move as pessoas, o sítio de euforia, o momento em que saímos de nós para nos entregarmos a algo que nos controla.

O meu avô, que tinha muita vida dentro dele e gostava muito de viver, morreu antes do tempo. Quando morreu já era avô e já tinha careca – nós gostávamos de o arreliar, tocando-lhe nela -, mas foi antes do tempo, porque a vida não estava cansada dele nem ele farto da vida.

Foi só depois de o meu avô ter morrido que passei a dizer, sempre que me perguntavam pelo clube, que era do Vitória. É só por causa dele que respondo isso. Sei lá quem anda a treinar o clube, quem são os jogadores. Mas o meu inconsciente decidiu assim e eu obedeço-lhe.

Percebi, muitos anos depois, que o meu avô, apesar das nossas diferenças, era mais generoso. Na minha adolescência, eu saía da sala se havia jogo de futebol. Televisão ligada, rádio, barulho, e eu a querer ler poesia. Na altura, com 14 ou 15 anos, eu achava que Fernando Pessoa tinha vindo ao mundo para me dizer coisas que mais ninguém me dizia. Eu saía da sala, mas o meu avô, o meu avô deu-me a colecção de Pessoa inteira ilustrada.
 
Eu tinha muitas discussões com o meu avô. A minha avó abria a boca e dizia que eu discutia política como um homem. Sobretudo na minha adolescência, provocava-o sem medo, dizia-lhe que era comunista e apresentava-lhe as minhas teorias apaixonadas, quase punha Jesus Cristo a fazer a revolução armada. Não era bem aceite, mas o meu avô, o meu avô mandou encaixilhar um poema meu, uma vez. Chamava-se “Liberdade” e, pelo meio, tinha um verso sobre “fazer amor entre lírios e delírios”. O meu avô era conservador em muitas coisas, mas gostava mais de nós do que dessas coisas conservadoras. O poema ainda lá está, numa moldura, com uma letra muito redonda, um orgulho.
 
Hoje queria fazer com ele o que ele fazia com os meus poemas. Festejar em conjunto. Esquecer-me do facto de gostar ou não de futebol e ficar contente só porque ele ficaria contente. Dizer-lhe que o Vitória, caramba, o Vitória ganhou a taça de Portugal, bubu!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Pontes

 
Tenho uma tara por pontes. E já que estamos em modo de confissões, também tenho um fraquinho por aeroportos, gosto de ver o avião na pista; por estações de comboios, gosto de comboios velhos e de estações pequenas; e por metros, gosto de ir sentada, frente a frente com as pessoas. Mas as pontes. As pontes – têm de ter uma certa escala – só existem nas cidades e nos filmes. E nas fotografias. Existem de uma forma visual, com um grande corpo, e tenho muita pena de não saber mostrá-las num texto. Não se sente nada se disser que só gosto mesmo de conduzir se estiver a atravessar uma ponte. Tem de ser grande, tem de me parecer enorme, vista de baixo, vista de cima, vista dos lados. Mesmo que acrescente luz ao texto, mesmo que diga que está sol quando atravesso a ponte de carro, não chega para falar dela. Paciência. Mas continuo a gostar muito de passear perto de uma ponte, de ver uma da janela. Uma ponte muda tudo na paisagem. Põe a paisagem em movimento. A mim, põe-me em movimento também. Deve ser por isso que gosto delas, de estações de comboio antigas, de aviões na pista e de me sentar no banco do metro.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Um Gepeto em Veneza


Estas são as máscaras que tenho usado nas mais recentes andanças do Gatuno. Comprei-as numa viagem a Veneza: uma foi comprada numa cooperativa de artistas local e as outras duas a um artesão que me fez logo lembrar o Gepeto. É, como a personagem da história, italiano, mas este é de Veneza e, em vez de dar vida a um burattino, dá vida a máscaras. Tem para todos os preços e gostos, mas as que escolhi são feitas à mão e seguem a moda antiga da cidade dos disfarces, das gôndolas e dos canais.
Sinto uma estranheza boa diante de algumas máscaras, acho-as misteriosas, encantatórias. Depois de ter passado um Carnaval em Veneza de bocaaaberta, cheguei a fazer, quando andava no TEUC, um workshop de máscara: foi uma experiência intensa, porque as máscaras, já sabe, revelam mais do que escondem.
Os miúdos a quem as mostrei também não conseguem tirar os olhos delas. Tenho lido partes do livro com uma ou outra posta e, para que resulte cada vez melhor, ponho-me a ensaiar e ensaiar em casa. As horas que passei no teatro na faculdade ganharam um sentido novo (os sentidos subtis se calhar passaram-me despercebidos, ou não, mas isso não interessa nada agora).
Dinamizar uma leitura para crianças exige reflexão e treino, não sai na hora nem cai do céu sem aviso. Na Pós-Graduação em Livro Infantil, também temos (para além da parte teórica) workshops de animação da leitura e são horas maravilhosas em que andamos a ler poemas em voz alta, a fazer sons, a espreitar por janelas imaginárias ou a fazer de pássaro pela sala, ondulando os braços no ar. Fico tão abstraída de tudo que até me esqueço que os nossos colegas dos PhD’s da Católica, de fato e cara passados a ferro, nos vêem através do vidro…
Tudo o que parece simples é quase sempre difícil e ler um livro a crianças, agarrá-las pelo colarinho (como também se costuma dizer no jornalismo), não é excepção – e o difícil não é só a idade e a concentração (ou a falta dela) dos miúdos. O delicado é também encontrar um equilíbrio, porque agarrar pelo colarinho não significa folclore e excesso, mas sim vivacidade e alguma ousadia.
O facto, porém, de ser difícil encontrar esse sítio de intriga e de desassossego não lhe retira diversão. A única parte aborrecida é mesmo o país estar fechado para obras e com tabuleta à porta a dizer “Volte mais tarde”. Como não há dinheiro para nada e como, às tantas, é tudo tão divertido, ninguém se lembra que o tudo-tão-divertido dá trabalho, que os livros são para vender e que os autores (os escritores, os ilustradores, os editores) infelizmente não se alimentam só de gargalhadas.
A boa notícia é que, algumas vezes, o treino de ler poesia no chão ou a fingir que se voa, sob o olhar engravatado e atónito da maioria, ajuda-nos a virar a cabeça do avesso para encontrar algumas soluções. Com jeito, lá se percebe que os autores afinal também se alimentam de batatas assadas e arroz de ervilhas e até há quem se empenhe no tempero. Apesar da tabuleta à porta no país, já dizia (ou terá dito) Galileu: eppur si muove. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Uma mala sem descanso

 
Dizem-me carinhosamente que parece uma mala de palhaço. Reconheço que sim, que está mais próxima disso do que da poesia dos gatos, aqueles que são tão elegantes e cheios de silêncios como os poemas se tivessem patas. Mas a realidade é que o Gatuno não transpira propriamente poesia de gatos pelos poros, é mais um felino trapalhão e cómico do que um ser posto na terra pelos deuses para confundir os sentidos humanos.

Assim sendo, não me parece despropositado que esta seja, a partir do momento em que a fui buscar à garagem e lhe limpei o pó, a mala do gato Gatuno. E parece-me bem que seja vermelha como as dos palhaços - o Gatuno gosta de fazer rir e o vermelho é a cor da ira que ele sente diante do Trombudo. Tenho esta mania das histórias para as histórias. Como se uma cor precisasse de uma história, como se houvesse uma razão para o verde ser verde e o amarelo amarelo.

Nesta história da mala, as histórias não se ficam por aqui. Na minha rua (ela não é minha, mas eu gosto de lhe chamar assim), há uma loja de antiguidades - e de velharias... - que tem uma mala linda. Namoro-a todos os dias e, pelo menos, às terças e quintas vou lá apreçá-la e vê-la de perto. O senhor tira-a do móvel, eu aprecio-lhe o tamanho, as formas, e saio de mãos a abanar. Aquela mala tem uma história, e eu podia inventá-la. Está cheia de autocolantes de viagens. É velha e teatral, tem um passado naquele castanho gasto, não deve ter uma, mas imensas histórias. Aquela mala tem certamente, e pelo menos, uma história comprida, mas não é a minha história (pelo menos enquanto não morar nela como nesta rua que gosto de chamar minha).

Já esta mala vermelha foi, no passado, do meu tio António, casado com a minha tia Elisa, irmã da minha avó. O meu tio António tinha um negócio de relógios na baixa de Lisboa e viajava muitas vezes ao longo do ano para o estrangeiro. Herdei os postais que ele escrevia à minha tia. Preciosos retratos antigos dos sítios por onde passava e que começavam invariavelmente assim: “Minha querida, que estejas bem de saúde é o que mais desejo”. Sempre gostei de ler os postais, de ver as saudades que ele tinha dela, os beijos que lhe escrevia à mão, as queixas sobre a língua indecifrável na Alemanha, e sobre o frio mais frio e o ar-condicionado mais quente na Suíça. Queria dar um destino aos postais, o meu pai pensou que me pudessem inspirar uma história, mas, sempre que os lia e relia, nada acontecia que não fosse gostar de os ler e voltar a fechá-los na gaveta.

Por estes dias fui buscá-los e meti-os dentro da mala. Agora estão lá guardados, ao lado das máscaras de gato e do livro do Gatuno. Estão apenas lá dentro e ninguém, a não ser eu, se apercebe disso. Mas, para mim, a mala ganhou outro sentido. É que como se as viagens continuassem.

O Gatuno veio desassossegar a mala vermelha que estava pousada na garagem. Mas uma mala não serve para estar parada. Como um livro, serve para viajar, coleccionar histórias. Ir para um hotel em Zurique ou para uma biblioteca na Amadora. Tivesse ido um dia pela mão do meu tio-avô, vá agora pela minha: a mala está outra vez no seu caminho.

Apesar disso, mantenho o caso clandestino com a outra na loja de antiguidades. E um dia destes ainda vou raptá-la. Vou agarrá-la com as mãos e, mesmo que nunca tenha sido minha nem de ninguém que eu conheça, trazê-la para mim. Farei como faço com as histórias que leio: apropriar-me e deixar o resto acontecer.

Em narrativas como as destas malas andarilhas, sabemos só o passado: alguma vez o meu tio António, que só me conheceu até eu ser adolescente, adivinhou que eu ia andar com a mala dele por aí, com um Gatuno lá dentro?

quarta-feira, 20 de março de 2013

Roma cheia de gatos

Na noite em que deixei Roma para trás, depois de lá ter vivido um ano, olhei para a Fontana de Trevi e não deitei a moeda. Armei-me em esperta, porque diz o adágio que quem deita a moeda regressa. Fiz de propósito, naquela noite tinha a certeza que voltaria e, por isso, podia guardar a moeda no bolso e ir comer um gelado. Já lá vão 10 anos, mais coisa, menos coisa. E nada. Nunca mais voltei. Ando com aquela moeda entalada na garganta. Nunca mais voltei a Roma, nem a Itália, onde - apesar de ter ido para lá estudar - fiz das melhores férias da minha vida: entre a Sardenha e a Sicília, a ver nascer o sol em barcos, a dormir nas praias à noite, a acordar às seis da manhã e a ter o mar só para mim e para os meus amigos, a andar à boleia por montes perdidos na Sicília em carrinhas de caixa aberta tapadas por uma lona. Não víamos nada lá para fora, íamos aos rebolões lá dentro. Os condutores gritavam-nos: Tutto bene? E nós, perdidos de tudo menos de medo, respondíamos: Tutto! Nunca mais voltei a Roma, nem a Itália. E Itália é o país mais bonito que já visitei. Roma a cidade onde, se pudesse, gostava de viver. Mas Roma e Lisboa devem ser primas, por isso também gosto de estar aqui. Nos próximos dias, dez anos depois, vou finalmente regressar a Itália: a Veneza e a Bolonha. Vai ser bom, pelo menos vou ver a língua, ouvi-los cantar, porque falar, falam com as mãos. A língua e a comida, pelo menos em Itália, também são primas. Mas não vai ser Roma ainda, Roma cheia de gatos, e eu ando com Roma aqui, bem atravessada na garganta. Tento não forçar o encontro, porque a fonte se iria rir de mim. Mas se a vida não me levar, pois bem, terei de me meter num avião (e ir lá deixar a moeda).

segunda-feira, 4 de março de 2013

Piruças


A minha anarco-rafeira, que foi apanhada na rua, já tem 15 anos. Quem a conhece sabe bem como aquela vira-latas conseguia, durante os anos de juventude, transformar tudo à volta num alvoroço: andava sempre a 200 à hora e arrebitava cachimbo para todo o lado. Insubmissa, desobediente, cómica, porque pequena, era um terror próximo do desenho animado. Agora, já não é assim. Velhinha e com o pêlo branco, passa os dias deitada. Já não consegue subir bem para a cama, volta e meia cai nas escadas e fica à espera que a vamos buscar. No outro dia, nem reagiu quando levámos a Nico, a gata da minha prima, lá para casa. Apesar de agora na velhice ter, pelos vistos, aprendido a aceitar mais, a ladrar e a rosnar menos, posso dizer que nunca conheci uma cadela tão punk como a minha. E, claro, nunca me lembrei que ela fosse envelhecer.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Morrer de saudade

Quando se despediu de nós, o senhor Mafaldo disse-nos: “Escrevam-me uma carta, não me deixem morrer de tanta saudade”. Pois bem, senhor Mafaldo, cá vai. Escrevemos-lhe para não morrermos nós, também, de tanta saudade. Até do vento que nos fustigou em Cabo Verde sentimos falta.
 
Estivemos aí na época da bruma seca ou tempo das brisas. O vento não nos deu descanso. Era de dia e de noite. Bastava andarmos a pé meia hora, com ele a empurrar-nos, para parecer que tínhamos andado, sei lá, duas horas. Nem quando fomos à praia, aí perto da sua terra, no Tarrafal, ele amainou. Dentro de água, nem o sentíamos, mas cá fora a areia colava-se-nos ao corpo e não havia forma de estarmos deitados ao sol. Ficámos dentro de água, pois então. E a seguir fomos comer e beber para um restaurante, com vista para a praia. Comida com vista pelo mar fora é o que não falta em Cabo Verde.
Também fomos visitar o campo de concentração. O seu sobrinho, que é o músico Maruka, lembra-se de ver os presos políticos saírem. Contou-nos muitas histórias, o seu sobrinho. E o senhor Mafaldo também. Ficámos a saber que, na infância, foi com a mãe para uma roça, em São Tomé. Que só o deixaram acabar a 4.ª classe muito tarde. Mas fê-lo e tornou-se monitor escolar. Ainda tem os diplomas guardados.
Foi uma boa tarde a ouvir histórias. Quem não gosta delas? Também falámos daquela lenda sobre a origem de Cabo Verde. Aquela da distracção divina - lembra-se? Reza assim: quando Deus acabou de criar o mundo, sacudiu as mãos e caíram pequenos pedacinhos de barro no Atlântico, perto de África. Houve quem chamasse Deus à atenção por ter sido tão descuidado. “Então e agora que pessoas vais lá pôr? E que riquezas?” Mas Deus não se atrapalhou e disse que já havia muito sítio para habitar a terra, que ninguém iria para ali. Enganou-se, como sabemos. Ou não. Talvez houvesse naquele sacudir de mãos uma intenção maior. Escreve o cabo-verdiano Germano Almeida: “Criar um laboratório experimental de miscigenação de raças e culturas e ver o que dessa miscelânea poderia sair. E saiu o homem cabo-verdiano.”
O senhor Mafaldo, que é “100 por cento católico”, não acredita em actos distraídos de Deus. Faz rapidamente contas de cabeça, algures entre a criação do mundo e a chegada dos portugueses, e acha que algo não bate certo. “É só uma história”, diz, encolhendo os ombros. Admito que sim, senhor Mafaldo. É impossível contrariá-lo. Mesmo quando nos diz que cura cancro e sida só com aloé vera que nasce em frente da sua casa. Como contrariá-lo se fala com tanta calma e ponderação, se mastiga cada palavra e olha para nós, com uma expressão nem sei se afável, se séria? Olhe, senhor Mafaldo, não sei se acredito que uma planta cure cancro e sida, mas acredito em si. Parece a mesma coisa, mas não é.
Nesse dia, fomos de propósito conhecê-lo. O seu sobrinho, que é músico e enfermeiro, fez connosco uns bons quilómetros para nos apresentar o seu tio curandeiro. Foi um prazer conversar consigo, senhor Mafaldo. E andar pelo seu país. Sabe que mais? Apesar de tão diferente do nosso em tanta coisa, na paisagem, tão árida – quase não vimos verde – sentimo-nos próximos de casa. A língua, o Benfica... – meu Deus, eu, que não gosto de futebol, fiquei envergonhada por não saber, como devia, os médios e avançados da equipa em todos os jogos.
Sim, é verdade, senhor Mafaldo, quase não fizemos praia. Nem sequer fomos ao Sal. Mas passeámos pelo Mindelo, pela Baía das Gatas, pela Cidade da Praia, pelo Tarrafal, pela Cidade Velha… Contra o vento que não parava. Um vento de São Vicente que não é normal em Santiago, comentava-se nas ruas. Nas nossas fotografias, as palmeiras estão sempre penteadas só para um lado.
Quando nos despedimos de si, na Calheta, e regressámos à Praia, a noite caía. Na escuridão, os montes pareciam bichos meio adormecidos e as casas com as luzes acesas assemelhavam-se a múltiplos olhos que nos vigiavam.
E o vento, já sabemos, continuava.
Vamos voltar um dia, senhor Mafaldo. Da próxima vez, vamos para as praias! E, já sabe, se perder o medo de andar de avião, estamos à sua espera. Ainda nos disse: “Um dia, meto-me num barco e nem que demore um ano a chegar, vou. Queria tanto conhecer Portugal”. Venha que vai gostar. Agora, que penso bem, até o vento temos em comum. Não se chama harmatão nem lestada, nem vem do Sara, mas também é persistente como o vosso.  Pelo menos, nas férias da minha infância, nas praias do Alto Minho, lembro-me de haver sempre, durante todo o Agosto, nortada. E sabe que mais, senhor Mafaldo? Também tenho saudades dessas férias. É engraçado isto, porque não gosto de nada de vento e tenho tantas saudades...

Maria João Lopes

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O meu pai

Para ler com esta música no repeat:


O meu pai, conta a minha mãe, nunca me mudou uma fralda. E acho que só tenho uma fotografia ao colo dele, muito bebé. Mas tirava-me muitas fotografias e, quando eu tinha medo do escuro, ficava de mão dada comigo até eu adormecer. Que remédio, não podia ser sempre a minha mãe. Contava-me histórias à noite e aldrabava tudo. Não tinha sucesso, eu sabia cada palavra de cor.

O meu pai sempre gostou de me espetar petas: quando eu era miúda, disse que me ia dar um crocodilo e que íamos passeá-lo de trela para o Toural. Perguntei onde é que o íamos pôr, ele disse no terraço. Acreditei. Anos mais tarde, na minha adolescência, comprou-me uma viola para as minhas aulas. Disse-me que era uma Fender Stratocaster e deixou-me espalhar o mito. Só descobri que era mentira quando o meu avô paterno – que tocava guitarra portuguesa – se riu muito ao ouvir a suposta marca da guitarra.

O meu pai sempre murmurou palavrões ao volante, no trânsito, quando me levava à escola de manhã. E sempre teve um carinho especial pelos meninos que faziam diabruras nas aulas. Gostava dos malcomportados. Ele próprio orgulha-se das suas façanhas: quando andava no liceu, levou um vinil do Jimi Hendrix, com mulheres nuas na capa, para uma aula dada por um padre. Pousou o disco na mesa, sabendo que o padre o iria virar ao contrário quando passasse e visse as maminhas ao léu. Acertou. O meu pai adora arreliar as pessoas. E adora vinis. Deu-me o Kind of Blue do Miles Davis em vinil e em cd. Há coisas que nunca são de mais.

O meu pai nunca me inspirou confiança quando me dava dicas para os testes. Contestava as teorias todas que nos ensinavam em História - se eu as escrevesse seria certamente chamada à parte pelos professores. Uma vez, na primária, deu-me uma caneta de tinta permanente para as mãos e eu borratei a cópia toda. A professora disse-me para não usar mais canetas daquelas. Outra vez, a minha mãe, que estava ocupada, pediu-lhe para me fazer perguntas antes do teste de Ciências…Riscou-me o livro todo, a explicar-me como é que se estudava: setas para um lado, sublinhados para outro. Eu repetia-lhe que já tinha estudado, que só queria que me fizesse perguntas. Às tantas, fartou-se e disse-me assim: “Vamo-nos baldar para isto?” Claro que fui logo, disparada, contar à minha mãe.

O meu pai resistiu até à última, quando fiz uma birra porque queria ir de anjo na procissão da catequese. Para o meu pai, não devia haver pesadelo maior do que passar um sábado ou um domingo lá na paróquia, no meio de crianças vestidas de anjos e de nossas senhoras. Só me dizia: “Mas que grande frete”. Lá acabei por convencê-lo, mas chegámos tão tarde que já não havia fatiota para mim.

O meu pai tentava antes convencer-me a alinhar noutros programas. Queria, por exemplo, que fosse com ele a um concerto dos Rolling Stones, quando eu ainda andava para aí na quarta classe. Persuadiu-me de todas as formas, disse-me que eles usavam umas bonecas insufláveis, gigantes, no espectáculo. Nada, foi sozinho. Mais tarde, quando eu tinha aí uns 12 anos, já não sei precisar, sabendo que eu gostava (na altura!) de Guns N’Roses, comprou logo bilhetes. O Expresso escrevia que vinha aí a banda mais perigosa do planeta. Falava-se que a pala de uma das bancadas do estádio de Alvalade não oferecia segurança. E o meu pai como um peixe na água. Pouco tempo depois, entre outros concertos, fomos também juntos aos U2. Em nenhum dos casos era música que o meu pai apreciasse particularmente, mas era sem dúvida um programa melhor do que as procissões da catequese.

O meu pai sempre resolveu problemas num instante, e com grande sabedoria. Recordo-me, por exemplo, da forma como rapidamente me sossegou quando, na primeira classe, tropecei na mochila de uma amiga, caí na sala de aula, e abri a parte superior do lábio. Quando o meu pai chegou à escola, eu estava agarrada à professora, e não parava de chorar. Ele agradeceu o cuidado, meteu-me no carro e, como eu não me calava, perguntou-me: “Queres ir ao hospital levar pontos nisso ou queres uma super gorila?”. Eu parei de chorar e, com uma voz ainda muito sofrida, respondi: “Uma super gorila”. Tenho pena que a minha cicatriz já quase não se note hoje, porque, quando alguém repara nela, gosto de me lembrar que as nossas piores dores podem passar com algo tão simples como uma pastilha elástica. E cicatrizar por si.

Mais tarde, quando comecei a viajar sozinha, o meu pai nunca se preocupou em saber se eu tinha comido ou dormido bem. O que queria - e quer - saber é se, por exemplo, estou a levar com 50 graus em Marrocos. Isso é que o deixa bem-disposto. O meu pai compreende-me se eu gastar seis euros a beber um café na Piazza Navona e depois tiver de dormir o resto das férias na praia, ao relento. O assim-assim não vale a pena.O meu pai é politicamente incorrecto. Responde torto quando lhe apetece. Gosta do azedume do Vasco Pulido Valente e do catastrofismo do Medina Carreira. O meu pai não gosta de paninhos quentes.

O meu pai não tem medo de envelhecer. Gosta de se auto-intitular “o velhote”. O meu pai só não gosta é que lhe digam que é parecido com o Guterres. De facto, de cara são parecidos (e eu sou a cara chapada do meu pai…), mas o meu pai é bem mais alto. Apesar dessas semelhanças, quando olho para o meu pai, não consigo ver o Guterres, mas o Mick Jagger. O meu pai ouve música nas alturas no carro. Antigamente ouvia rock nas alturas em casa, com phones– e sem eles, quando a minha mãe saía. Hoje ouve ópera. Não mudou nada na essência. Continua o mesmo.

O meu pai chateia muito as pessoas que o chateiam. Escreve cartas para bancos, para agências de viagens. A sua figura de estilo preferida é a ironia, gosta do Eça. Mas o meu pai manda muitas vezes a erudição às urtigas. O meu pai, uma vez, queria andar à porrada numa reunião de condóminos.

O meu pai casou com uma minhota, a minha mãe. E foi recambiado de Lisboa para Guimarães. Hoje vive rodeado de mulheres. E adora uma boa guerra de sexos: passa a vida a dizer que teve tanto azar que lá em casa “até o cão é cadela” (ainda por cima, a Piruças tem muito pêlo na venta).

Lá em casa, o meu pai só trata do vinho. Eu tento até hoje educá-lo, mas não consigo. Na verdade, ele também nunca me obrigou a fazer nada, nem a cama, nem a arrumar a cozinha, nem o quarto. E sempre me deixou ir de pijama para a mesa. E tem gosto em servir-me na mesma o vinho, mesmo que eu esteja com remelas e de pantufas. A verdade é que o meu pai não faz nada lá em casa, mas faz-nos as vontades todas.

O meu pai sempre trabalhou, mesmo à noite e aos fins-de-semana. Quando eu era miúda, ele só tirava 15 dias de férias. Dizia que estava a ganhar a vida. Ganhar a vida para o meu pai significa ganhar dinheiro. E o meu pai não chama dinheiro ao dinheiro, chama-lhe caroço. Se um psicólogo visse aquilo, não aprovaria. Mas o meu pai também não aprova muito a psicologia.

Massacrava-me, a mim e às minhas primas, por causa da nossa pronúncia do Norte e por causa da nossa ignorância em História e Geografia. Chamávamos-lhe o Professor Tonecas.

Quando eu tinha 16 anos, o meu pai ia-me buscar à discoteca às quatro da manhã, com um sobretudo por cima do pijama. E encarou com muito desportivismo as duas vezes em que, no dia da mudança do relógio, o deixei uma hora à seca. Quando entrei no carro, só me disse assim: “Para o ano, já não caio”. Caiu. Ainda hoje se ri disso, aprecia uma boa disputa. O meu pai gosta de se rir dele. E gosta de pessoas que se sabem rir delas. Diz que é sinal de inteligência.

O meu pai é impaciente. Uma vez saiu do carro em plena Avenida D. João IV e mandou parar o trânsito, qual polícia sinaleiro, porque uma senhora não conseguia fazer uma manobra e ele estava farto de esperar. Por acaso, dessa vez não estava com ele, mas já passei por vergonhas semelhantes. O meu pai não quer saber. O meu pai quer lá saber.

O meu pai não é piegas. Por isso não lhe podia escrever um texto piegas. O meu pai não gosta de filmes românticos, a não ser que metessem, há uns anos, a Kim Basinger. O meu pai prefere o Apocalypse Now ou a trilogia do Padrinho – e eu herdei dele esse fraquinho pelos loucos e pelos gangsters do cinema.

O meu pai não se entusiasma muito com as minhas esforçadas tentativas de escrever reportagens de teor literário. Mas gosta muito de ler cada um dos comentários que os leitores fazem aos meus artigos. Se forem insultuosos, melhor. Telefona-me logo a perguntar se já os vi, não vá dar-se o caso de me ter passado despercebido… Diverte-se à brava. O meu pai adora uma boa polémica. Manda-me emails com histórias que acha serem notícia e assina-os Garganta Funda.

O meu pai nunca se preocupou com as adversidades que me surgem no caminho. A única coisa que me sabe dizer, desde miúda, é: “desenrasca-te”. Quando aí aos nove anos tive o meu primeiro arrufo de amor, o meu pai apoiou-me: “Se ele te voltar a chatear, tu diz-me que eu dou-lhe um murro”. Depois reconsiderou: “Dá-lhe antes tu”.

O meu pai ensinou-me a não pensar nos problemas antes de eles chegarem. E quando chegarem? “Logo se vê”.

O meu pai não sabe, mas aprendi com ele que a felicidade depende sobretudo disto: de nos rirmos de nós próprios, de nos desenrascarmos e de não termos medo. Logo se vê. Só não sei, ainda, como o meu pai, não ligar patavina ao que não nos interessa. E ele sabe fazer isso com uma pinta desgraçada. Deviam ver. O meu pai é o maior da rua dele.

E o meu mundo foi, durante muito tempo, do tamanho dessa rua. Já não é. Mas o meu pai continua a ser o maior.

Faz hoje 60 anos.

Verão no Algarve

Tenho mais que fazer, é verdade, mas não me apetece. Desconcentro-me facilmente a ler na praia. O Vargas Llosa que trouxe não vai bem com as conversas da vizinhança no areal, e eu não resisto nunca a arrebitar a orelha para as ouvir. Tenho duas entrevistas de várias horas para passar, e é o que vou fazer já, já a seguir (não vá dar-se o caso de algum dos meus editores estar a ler isto).

Por enquanto, vou só até ali à varanda escrever. Deixo o computador, pego num bloco e numa caneta. É raro fazê-lo assim: no papel e com caneta (trabalho, a tirar notas, não conta). Chama-me à atenção um pai, um ser enorme e peludo, enfiado na piscina das crianças. O filho dele, um ser pequenino e de braçadeiras postas, chora à borda da piscina, a olhar para ele. O caso não é para menos. Se o meu pai estivesse na piscina das crianças eu também me fartaria de chorar.

O pai vira-se de barriga para baixo e, em vez de nadar, dada a altura mínima da água, começa a andar, tocando com as mãos (as patas da frente) no fundo da piscina. A criança tenta chamá-lo à razão: atira-lhe com uma pequena bola colorida à cara e, quando ele se aproxima o suficiente, aperta-lhe o nariz com força. Nada, o pai está contente. E continua a mover-se devagar pela piscina. Parece um tubarão com calções às flores azuis.

O pai-tubarão tenta convencer o miúdo a entrar. Para isso, faz um número: enfia a cabeça dentro de água e começa a mover-se em círculos, para aparecer depois súbita e furiosamente, diante do olhar consternado da criança. O miúdo olha para ele e, logo de seguida, vai a correr para o pé da mãe na espreguiçadeira. Mais uma vez, compreendo a criança.

E compreendo os outros miúdos que estão todos, não na piscina pequena, mas na dos adultos. Movimentam-se freneticamente com as braçadeiras postas - não sei como aguentam tanto tempo naquele ritmo do nadar à cão. Mas que aguentam, aguentam: horas a fio. Tomara eu ter aquele fôlego quando vou praticar para o Clube Nacional de Natação.

O pai, esse, continua dentro da piscina dos pequenos. É mesmo a única criatura lá enfiada. Agora sentou-se, e está a brincar sozinho com a bola. Não, não está a brincar sozinho com a bola. Em bom rigor, ficou a brincar sozinho com a bola.

E só no fim deste texto é que o percebo. Está muito calor. Ali, naquela piscina pequenina, o pai-tubarão com calções às flores azuis está sentado, e fresquinho. Mesmo assim, fico do lado do puto. Se puder optar, quando mergulhar, só pode ser na piscina funda e, se puder optar uma segunda vez, quando crescer, não quero ser grande.  

sábado, 28 de julho de 2012

Verbo desacontecer

Hoje andei atrás do verbo desacontecer. Encontrei-o ontem num livro do Mia Couto e esta manhã ele ainda me acordava. Fui ao dicionário, nem sei bem porquê, mas ele não estava lá. Meti-o no Google, meto tudo no Google – se um dia alguém entrar no meu computador vai ficar chocado com o tipo de pesquisas que faço, só ontem pesquisei ‘gosto de me cortar’, 'Slavoj Zizek psicanálise', ‘Emanuel 18 anos’ (não procurava conteúdos eróticos, mas a notícia do rapaz que não sai de casa), e outras coisas que podem parecer estranhas. Meti então o verbo desacontecer no Google e dei de caras com inúmeras entradas. Preferia não ter dado com tantas, admito. Mesmo assim gosto do verbo,  não me lembro de outro mais bonito para traduzir, entre outros significados possíveis, aquilo que acontece precisamente por não acontecer.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Galhetas e canalhada brava

Na minha terra chama-se canalha às crianças. Só percebi que noutros lugares não era uma palavra carinhosa quando estava a tirar a carta de condução em Coimbra, e o meu instrutor estranhou que eu tivesse exclamado “esta canalha!”, diante de um bando de fedelhos que se atravessou em frente do carro.

A minha avó sempre nos chamou, a mim e às minhas primas, canalha. Às vezes ia mais longe e apelidava-nos mesmo de “canalhada brava”. Na casa dos meus avós sempre houve, nos natais, aniversários e passagens de ano, uma mesa dos adultos e outra da canalha. Nunca ouvi alguém proferir a expressão “a mesa das crianças”. Sempre foi “a mesa da canalha”.

E havia uma hora de irmos todas "recambiadas" para a banheira, quando chegávamos de lábios roxos da praia (só a canalha é que é valente o suficiente para enfrentar o gelo do mar do Norte).

A canalha, como nós éramos, actua em magote: corre nas festas de anos, sua, grita. Meninos e meninas: fica tudo transpirado, com as fraldas de fora, os cordões dos sapatos desapertados e os laços cor-de-rosa tortos na cabeça. Chegávamos ao fim, com as faces vermelhas de tanto brincar, e nunca achávamos que já eram horas de ir embora. A nossa avó já sabia: “A canalha nunca tem pressa.” Quando insistíamos, perguntava: “Mas agora a canalha já dá leis?”

Às vezes, se abusássemos da sorte, ameaçava dar-nos uma galheta, que era uma palavra que, em vez de nos assustar, nos fazia rir. Uma “galheta bem dada” era sempre um motivo de galhofa (galheta e galhofa até são parecidas). Ríamos nós, e ria-se ela.

Ainda hoje acho a palavra galheta cómica. Não gosto tanto da palavra canalha, mas divirto-me com o que cabe dentro dela. Na minha rua, há dois miúdos que passam as tardes a picar-se de bicicleta. No outro dia, um deles declarou alto e bom som: “Já te provei que ando mais do que essa tua trotinete!”. E continuaram naquele despique até o sol se pôr.

Se a minha avó visse aquilo, assomaria à janela para lembrar que já são horas de ir para casa, e acrescentaria o clássico “à noite nunca há pressas”. Quando nos abrisse a porta, avisaria: “Gira já tudo para banheira antes que levem uma galheta”. E nós íamos rir que nem perdidas daquela terrível ameaça. Canalhada brava… E continuaríamos à volta dela, a mostrar a cara e a fugir, só para a ouvirmos dizer outra vez a palavra “galheta”.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Diálogos - Parte II. Em casa.

Afonso, 5 anos: Um dia vou escrever uma canção só com palavras fixes.

Mãe: Ai sim? Então e dá-me um exemplo de uma palavra fixe.

Afonso: Relâmpago.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Diálogo num colégio em Santo Tirso

A Professora: Então, e agora nós vamos perguntar à Maria João se dá muito trabalho escrever uma história. E ela de certeza que nos vai dizer que teve, e tem, de ler muito e escrever muito. Não é, Maria João?

Eu, embalada pelo espírito pedagógico (que rapidamente me sairia furado): Sim, claro. Temos de ler muito. Ler um bocadinho todos os dias, escrever outro bocadinho todos os dias... Sabem que, quando tinha a vossa idade, já sonhava escrever um livro. Só se concretizou agora, que tenho 31 anos, o que prova que, por maiores que sejam as dificuldades, nunca se deve desistir. Porque, se acreditarmos muito, e trabalharmos para isso, os nossos sonhos, por mais impossíveis que nos pareçam, acabam por acontecer.

A menina: Isso é mais ou menos assim, porque eu, por exemplo, até posso sonhar muito que quero voar e não vou ganhar asas. Ou vou?

Eu (trazida à terra por uma criança): Pois, tens alguma razão. É melhor escolher um sonho que não desafie as leis da gravidade e da natureza.

domingo, 17 de junho de 2012

O Gatuno ganhou vida própria

No dia 28 de Junho, vou lançar o meu primeiro livro, com a história que venceu o Prémio Branquinho da Fonseca, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Jornal Expresso. Chama-se O Gatuno e o Extraterrestre Trombudo e foi uma brincadeira que nasceu numa sala do Chiado, durante um workshop que fiz com o David Machado sobre como escrever um livro infantil.

Tínhamos de levar uma ideia para as sessões e eu cheguei com uma tão disparatada como um gato que acredita que o aspirador que os donos compraram lá para casa é um extraterrestre.

Inspirei-me descaradamente no meu gato preto, o Fellini, que é trapalhão, curioso, desastrado, cómico, meigo, assustadiço, e pouco esperto. A Lolita, a minha gatinha branca, nunca me poderia ter inspirado tal absurdo. Redondinha e com orelhas cor-de-rosa, é uma elegância nos modos. A Piruças, a minha cadela, é uma anarco-rafeira da qual se deve manter alguma distância de segurança. É uma vira-latas desconfiada e imprevisível, como se costuma dizer que são os gatos.

O Gatuno, o nome do gato na história, é portanto o Fellini dos pés à cabeça (ou do focinho às patas, em bom rigor). É uma espécie de alter ego. A única diferença é que o Gatuno é branco, mas isso foi apenas um recurso (e pouco sofisticado) para esconder elementos autobiográficos.

Pois bem, o Gatuno vai ganhar vida própria já a partir do dia 28, com o lançamento do livro na Gulbenkian. É editado pela Dinalivro e as ilustrações são do Paulo Galindro. Já as vi e o Gatuno, acreditem, está mais pateta do que nunca.

Estou feliz com o meu primeiro livro. Gosto do texto, das ilustrações. Gosto do Gatuno como do Fellini, e dos meus bichos todos. Estou feliz por os meus animais terem dado origem ao meu primeiro livro. Juntaram-se duas coisas que tornam a minha vida maior: os livros e a bicharada.

Apesar de adorar o Gatuno, estou morta por vê-lo caminhar pelas suas próprias patas. Gosto de imaginá-lo a entrar por outras casas adentro, e fazer rir as pessoas. O raio do gato está todo contente por se ir embora deste apartamento, deste computador. Tem agora uma morada nova, uma casa ambulante como é um livro.

O Gatuno vai deixar, assim, de ser meu, e de outras pessoas que o acarinharam antes e durante este processo. Ainda bem. Já o estou a ver a sair todo vaidoso das páginas do seu novo livro, para surpreender e divertir os leitores. Conheço-o. Acreditem que vai empenhar-se de todas as formas e feitios para dar corpo à história de que é protagonista. De cada vez que os mais pequenos, e os maiores também, a lerem, vai dar o seu melhor. Espero que o acolham de braços abertos: é um gato cheio de coração, apesar de fazer muitas maldades.

Bem-vindo ao mundo, cabeça-de-noz!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Curtir o fundo da piscina

A minha vizinha do terceiro andar é professora de música. É uma senhora já de idade que toca muito bem piano. Hoje, domingo, desliguei a televisão e a aparelhagem só para a ouvir. Hesita aqui, repete ali, volta ao mesmo, muda de rumo. E eu, dois andares abaixo, a seguir-lhe os dedos, e a imaginar-lhe a cabeça ora dobrada junto ao piano, ora levantada a balançar.

Ela tem muito bom gosto musical. Algumas pessoas que vieram cá casa já o notaram. Volta e meia está a ouvir jazz, ou então o Hino da Alegria, nas alturas. Fá-lo em dias de sol aberto e à hora de almoço. Se abrir a janela da minha cozinha, a música dela invade-me tudo.

Neste momento, lá está ela, a tocar. Voltou atrás, corrigiu. Vai passar a tarde nisto.

Este som ao longe faz-me lembrar os tempos de Coimbra, em que passava muitas vezes pela rua do antigo Conservatório, e ouvia cá fora as aulas de canto, as vozes a afinarem-se, os violinos a desafinarem-se e os pianos à procura de se soltarem. Mais tarde, vivi lá perto, e adorava quando aquilo tudo me chegava aos ouvidos. Não precisava de ser perfeito, podia chegar aos tropeções que eu gostava na mesma. Talvez tudo isto se deva ao facto de, com alguma pena, nunca ter tido qualquer jeito para música, nem sequer para a flauta do ciclo preparatório, apesar dos incentivos do professor. Os ditados rítmicos eram um suplício. Quando um outro professor de música que tive começava a bater com uma moeda na mesa, eu ficava em pânico sem saber o que escrever no caderno. Para mim, era chinês. Copiava tudo por uma amiga, que percebia bastante daquilo. E ficava deslumbrada com o ouvido dela: como é que ela percebia o que ele estava a dizer, quando batia com uma moeda na mesa?

O talento, o dom de certas pessoas é extraordinário. E não precisa de ser só na música. Outra das artes para a qual nunca tive queda, apesar das aulas na infância, foi para nadar com desenvoltura. Aquele nadar que parece dançar não é comigo. Sei nadar: mal, mas sei. Mergulho de chapa, engulo pirolitos, e, mesmo assim, adoro água, piscina, mar.

Agora, adulta, resolvi voltar à natação para aperfeiçoar a minha técnica, ou não técnica. Inscrevi-me no Clube Nacional de Natação, e frequento as aulas dos adultos. À hora a que vou, à noite, sou quase só eu a chapinhar na piscina e o professor à minha volta a tentar convencer-me de que a minha maior dificuldade é nos bruços, quando essa modalidade é precisamente aquela que acho saber fazer melhor. Ele diz que nado com pés de bailarina, e que tenho de pôr os pés à Charlot. Não consigo, os meus músculos têm uma memória prodigiosa, são muitos anos a nadar mal, digo-lhe eu. E o pior é que, quanto mais me concentro, menos fluído é o meu movimento, mais me descoordeno, criando uma sensação artificial com as pernas que me constrange, prende. Ele diz-me "vá, quatro piscinas": ponho os óculos e começo a nadar para a frente e para trás. Enquanto atravesso a piscina, fixo-me mentalmente nos sapatões do Charlot e nada, zero. Só consigo ser cómica como ele, mas não consigo pôr os pés para fora . As pontas de ballet perseguem-me dentro de água.

Entretanto, àquela hora tardia, já só estão atletas de competição na piscina, a nadar mariposas esplêndidas. Mas nenhum deles consegue as minhas proezas. Primeiro, fazer com que o professor se deite no chão da piscina para me explicar, em seco, os movimentos. Segundo, ouvir da boca do professor que, quando me concentro, nado um misto de mariposa, crol e bruços. É fantástico.

Diz ele que eu tenho de incorporar a técnica e, depois, relaxar. Diz-me assim: “Maria João, pense noutra coisa, curta o fundo da piscina”. Eu bem tento, mas só me vêm à cabeça os sapatos esburacados do Charlot. Ao meu lado, nadam-se mariposas surpreendentes, bruços com elegância e suavidade, crol com rapidez e naturalidade. Vê-se a técnica, a perfeição do movimento, mas mais do que isso: vê-se que estão a curtir o fundo da piscina. Claro que não há talento sem treino. Mas, diante de um talento, quase nos esquecemos do treino que é. Parece tudo orgânico.

Eu, por exemplo, nem dou pelos ensaios da minha vizinha. Ou melhor, dou, mas às tantas, ao fim de uns minutos, é como se não desse. Nesses momentos, em que me esqueço, sei que estou com(o) ela a curtir o fundo da piscina.

sábado, 12 de maio de 2012

O Sassetti na nossa adolescência

Um amigo de infância, o Eduardo, enviou-me ontem uma mensagem. Era um admirador do músico. Assim que soube da morte do Bernardo Sassetti, lembrei-me logo deste meu amigo, que tem um gosto irrepreensível. Estava consternado.

Na mensagem perguntava-me se eu me lembrava, dizia que tinha sido a nossa primeira entrevista. Por acaso, não foi a minha primeira entrevista, respondi-lhe. A minha primeira entrevista foi, de facto, nesse Guimarães Jazz muito longínquo - acho que nem treze anos tinha feito ainda -, mas foi ao Hermeto Pascoal.
Durante a adolescência, tínhamos um grupo que escrevia umas coisas para o jornal local, o Povo de Guimarães. Nesse Guimarães Jazz íamos em bando entrevistar músicos a sério. É muito divertido pensar hoje nas perguntas que um bando de adolescentes em descoberta fazia a artistas como aqueles. Perguntávamos tudo: sobre o amor, sobre deus, sobre a arte. Fazíamos as perguntas mais espantosas, e víamos respostas no que nos diziam. Era um deslumbramento. Era mais poesia do que jornalismo, para ser sincera.
Bom, a primeira entrevista deste bando foi ao Bernardo Sassetti. Eu não fui, infelizmente. Mas ouvi-os nos dias seguintes a contar cada detalhe de cada resposta. Estavam em estado de encantamento. Ainda por cima o Bernardo Sassetti não só tinha talento, como era giro que se fartava. As meninas ficaram enfeitiçadas. Os rapazes também.
Nessa altura usavam-se gravadores com umas cassetes muito pequeninas. Como é evidente, à falta de material, reciclávamos as cassetes, gravando entrevistas umas por cima das outras. Mas havia duas intocáveis: a do Sassetti e a do Hermeto Pascoal. Eram pura magia. Acontece que alguém gravou por cima da do Sassetti e a entrevista dele eclipsou-se. Ninguém queria acreditar. Esse meu amigo de infância não se conformava. Por cima da do Sassetti, foi gravada uma entrevista à Matilde Rosa Araújo. Foi uma boa entrevista também, mas nós éramos adolescentes… Já não queríamos ouvir histórias para a infância. Naquela altura, nada nos tocava como a música, o amor e a poesia.
Naquela altura o bando ficou em estado de enamoramento pelas mãos, pelo piano, pela afabilidade do Sassetti. Será que ele se apercebeu do tamanho daquela inocência?
Já foi há quase 20 anos. Mas esse meu amigo de infância, o Eduardo, não se esqueceu. Enviou-me logo uma mensagem, queria saber se eu me lembrava. Lembro-me perfeitamente. E não estive lá.